Neste domingo (19), Daniel Ortega anunciou que a Nicarágua não realizará mais eleições. A justificativa de Ortega é evitar que a oposição chegue ao poder, eliminando a possibilidade de uma disputa.
Seu mandato ainda estava previsto para terminar no próximo ano. Leia abaixo e entenda a trajetória do presidente na política da Nicarágua.
Daniel Ortega e Oposição
No último domingo (19), Daniel Ortega discursou durante a comemoração da Revolução Sandinista de 1979. Ortega também foi um dos que ajudou a derrubar a brutal ditadura de Anastasio Somoza, que caiu nesse mesmo ano. Em seu discurso, ele disse que:
“Não haverá mais eleições aqui para que eles tentem tomar o governo e conquistar o poder; os dias em que partidos apoiados pelos ianques e pelos somozistas voltariam ao poder acabaram. Nunca mais.”
Essa também havia sido sua primeira aparição pública em 2 meses.
Na última eleição da Nicarágua, em 2021, Daniel Ortega prendeu opositores e criminalizou manifestações de dissidência. Além disso, o presidente realizou uma série de reformas constitucionais no ano passado, sendo uma delas a nomeação da sua esposa como “copresidente”.
Todas essas medidas foram amplamente contestadas pela população. O governo de Ortega chegou a ser acusado pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU de transformar o país em um Estado autoritário. Clique aqui e veja o relatório da ONU.

Trajetória de Daniel Ortega
Daniel Ortega está no poder ininterruptamente desde 2007, chegando ao poder após a Revolução Sandinista de 1979, que derrubou a ditadura direitista que dominava o país. Antes disso, o país era alvo de forte influência dos Estados Unidos, que ainda queriam construir um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico.
Ortega foi eleito em 1985, vindo do movimento sandinista, que representava uma alternativa de esquerda revolucionária ao longo da ditadura.
O Sandinismo foi um movimento que nasceu no início do século 20, contra a interferência americana no país. Nos anos 80, Daniel Ortega foi um dos líderes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) contra a ditadura da família Somoza.
O presidente ocupou seu primeiro cargo de 1985 a 1990, mas perdeu as eleições em 1996 e 2001, voltando ao poder apenas em 2007. No seu 1º mandato do século 21, Ortega retirou os impeditivos para reeleição no país, assim, ele concorreu a mais três eleições, vencendo todas. Assista abaixo e entenda o contexto da Revolução Sandinista.
De 2007 até hoje
Daniel Ortega foi rompendo a democracia aos poucos após vencer em 2007. Em 2012, sua vitória veio junto de denúncias de fraude eleitoral, e em 2016, o líder barrou todos os opositores.
Já em 2018, protestos contra o governo Ortega sofreram forte repressão e mais de 300 pessoas morreram nas ruas. Essas haviam sido as primeiras manifestações violentas na história do governo. Ortega considerou que os protestos haviam sido orquestrados pelo imperialismo norte-americano e responsabilizou grupos terroristas de oposição pelas mortes.
Curiosamente, alguns dos principais nomes da oposição foram companheiros de trajetória de Ortega na luta contra a ditadura de Somoza. Esses ex-aliados chegaram a ocupar cargos importantes no governo sandinista entre 1979 e 1990. Vários deles ainda criticaram Ortega por políticas de aliança com partidos conservadores e entidades empresariais.
Daniel Ortega também tem tentado expulsar a Igreja Católica do país, sustentando-se nas igrejas neopentecostais e movimentos conservadores. O presidente já expulsou 18 freiras, prendeu padres e queimou imagens de santos nas igrejas e nos centros religiosos.
Em 2024, Ortega revogou o registro de 1.500 organizações sem fins lucrativos, sendo elas voltadas para esportes, grupos de apoio a minorias (LGBTQIA+ e mulheres) e instituições religiosas.

